A santíssima trindade é a melhor comunidade!

Artigo: A santíssima trindade é a melhor comunidade!

Pe. Aldo Fernandes

V: Enviai, Senhor, o Vosso Espírito e tudo será criado

R: E renovareis a face da terra!

Ícone de André Rublev: a Santíssima Trindade
Ícone de André Rublev: a Santíssima Trindade

O Deu cristão é a comunhão dos Divinos Três, Pai, Filho e Espírito Santo. Eles eternamente estão jorrando um em direção ao outro a ponto de construírem um só movimento de amor, de comunicação e de encontro. Como entender melhor essa realidade? Não se trata de desvendar o mistério de Deus. Trata-se de captar o movimento divino para podermos vivenciar melhor a presença e a atuação da Trindade dentro do mundo e da nossa trajetória pessoal.

Para quem quiser se desgastar em explicar a Trindade, é oportuno lembrar a experiência de Aurélio Agostinho (o futuro Santo Agostinho), nascido no ano 354, em Tagaste (hoje Souk Arhas, Argélia, norte da África), de pai pagão e mãe cristã (Santa Mônica). Batizado em 387, em Milão por Santo Ambrósio, em 395 eleito bispo de Hipona (Hippo Regius), morreu no dia 28 de agosto de 430. Pensador genial, agudo dialético, psicólogo nato, filósofo e teólogo, já em sua vida teve grande prestígio na Igreja do Ocidente. No final de sua obra Confissões (XIII,11), no ano de 397, escrevia Santo Agostinho: “Quem compreende a Trindade Onipotente? E quem não fala dela, ainda que não a compreenda? É rara a pessoa que ao falar da Trindade saiba o que diz. Contendem e disputam. E contudo ninguém contempla esta visão sem paz interior”. É conhecido o episódio lendário sobre o santo Bispo de Hipona: andava Agostinho à beira-mar, quando encontra uma criança ocupada a passar, com uma concha, a água do oceano para o pequeno buraco cavado na areia. Espantado diante desta vã tentativa, a criança, que se revela ser um anjo, responde ao Santo Doutor: “Seria mais fácil fazer entrar o mar neste buraquinho do que para ti explicar a mínima parcela do mistério da Trindade”.

A Trindade (no original latino: De Trinitate) é certamente sua obra teológica mais importante. Na carta (n. 174) a seu amigo Aurélio, Bispo de Cartago, ele se refere a este livro como opus tam laboriosum, obra muito trabalhosa, “que iniciei como jovem e terminei como ancião”. Supõe-se que a elaboração da obra durou uns vinte anos, de 399 a 419. Claro que, neste tempo, Agostinho escreveu outros livros. Mas, pela dificuldade do assunto, este foi sempre adiado e aperfeiçoado aos poucos. Ele mesmo confessa em uma de suas cartas ao Bispo Evódio, que “certamente poucos leitores serão capazes de seguir suas explanações”. A obra consta de 15 livros. A tradução brasileira, da Editora Paulus (1995), tem, com as notas, 735 páginas. Tantos outros Teólogos e Místicos se debruçaram sobre o mistério da Trindade: Boécio (Roma, 475-Pavia, 524); Anselmo de Aosta (1033-1109); Ricardo de São Vítor (+ Paris, 1172), São Boaventura (Viterbo, 1217 – Lião, 1274); Santo Tomás de Aquino (Nápolis, 1225 – Lião, 1274).

A Teologia Bíblica encontrou uma palavra para expressar esta dinâmica divina: vida. Deus é entendido como um viver eterno, doador de vida e protetor de toda a vida ameaçada como aquela dos pobres e injustiçados. O próprio Jesus, o Filho encarnado, se apresentou como aquele que veio trazer vida e vida em abundância (Jo 10,10). Considerando profundamente o que comporta a vida, compreenderemos melhor a comunhão de amor dos Divinos Três. Vida é um mistério de espontaneidade, um processo inesgotável de dar e receber, de assimilar, incorporar e entregar a própria vida em comunhão com outra vida. Ligada ao fenômeno da vida está a expansão e a presença. Um ser vivo não está aí como pode estar uma pedra. O ser vivo possui presença, que significa uma intensificação de existência. O ser vivo fala por si mesmo; não precisa usar palavras para se comunicar.

Diante de um vivente devemos tomar posição: acolher ou rejeitar a vida do outro. Toda vida inclui um processo de comunhão com algo diferente com o qual entra em osmose, incorporando-o a si mesmo. Toda vida se reproduz em outra vida. Pela própria natureza, a vida se expande. Entendendo o dinâmico mistério da vida, nos aproximaremos da humilde compreensão do mistério da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo são Viventes eternos e se auto-realizam na medida em que um se auto-entrega aos outros. A característica fundamental de cada Pessoa divina é ser para a outra, pela outra, com a outra e na outra. Assim como alguém somente é feliz fazendo os outros felizes, de forma semelhante com a vida trinitária: cada pessoa é viva na medida em que dá a vida às outras e recebe a vida das outras. Porque é assim, entendemos por que nosso Deus somente pode ser a comunhão dos divinos Três e deve ser Trindade. É mais do que a dualidade, o Pai frente a frente com o Filho. É Trindade que significa a inclusão de um Terceiro para expressar a plenitude da vida para além da compreensão mútua: o Espírito Santo. A vida assim constitui a essência de Deus. E a vida é comunhão dada e recebida. E a comunhão é a Trindade!

Como entender que três Pessoas tão distintas uma da outra possam conviver, entender-se e se amar tanto?! Antes de tudo, o conceito antropológico de “pessoa” é de um estar-em-si, e, portanto, a pessoa significa uma individualidade irredutível; mas essa individualidade se caracteriza pelo fato de estar aberta aos outros. Pessoa é então um nó de relações voltado para todas as direções. Pessoa é um ser em relações. Nunca o eu está só. Ele é sempre um eco de um tu que ressoa dentro do eu. O tu é um outro eu, diverso, aberto ao eu do outro. É neste jogo de diálogo eu-tu que a pessoa humana vai construindo sua personalidade. No isolamento de si, há um frustração ôntica (própria do “ser”) da pessoa e um atrofiamento de sua personalidade. Isolando-se, o eu fica egoísta, egocêntrico, procurando insatisfatoriamente a si mesmo. Mas não existe somente o diálogo eu-tu. Existe também a comunhão entre o eu e o tu. A comunhão surge quando o eu-tu se expressam juntos, quando superam o eu e o tu e, unidos, formam uma relação nova que é o nós. Dizer “nós” é revelar a Comunidade. Ora é algo parecido que ocorre na Trindade. O Eu pode ser significado pelo Pai. Este Eu (Pai) suscita um Tu, que é o Filho. O Filho não é somente a palavra do Pai. É também a palavra ao Pai. Desta relação surge o diálogo eterno. Pai (Eu) e Filho (Tu) se unem e revelam o Nós. É o Espírito Santo. Ele é o nosso Espírito, o Espírito do Pai e do Filho. Aqui temo, portanto, a união divina, como expressão do relacionamento entre as três divinas Pessoas.

Desde toda a eternidade, sempre juntos, Pai, Filho e Espírito Santo co-existem. Ninguém é antes nem depois, ninguém é superior ou inferior. Eles são igualmente eternos, infinitos e misericordiosos. Eles formam a Comunidade eterna. Em seu relacionamento, cada uma das divinas Pessoas se volta totalmente para as outras. Não guarda nada para si. Coloca tudo em comum, seu ser e seu ter. Desta comunhão radical surge a comunidade. Na Igreja primitiva dos Atos dos Apóstolos se diz que os cristãos colocavam tudo em comum. Por isso não havia pobres entre eles. Na Santíssima Trindade, ocorre algo semelhante e ainda mais profundo. Os divinos Três são distintos; um não é o outro. Mas ninguém se afirma em exclusão do outro.

Cada Pessoa divina se afirma afirmando a outra Pessoa e se entregando totalmente a ela. As Pessoas são distintas para poderem se entregar às outras e estarem em comunhão. Para traduzir esta comunhão, os teólogos ortodoxos cunharam a expressão grega “pericórese”, a palavra grega “pericóresis” que significa literalmente “girar em torno”, que começou a se espalhar a partir do século VII, especialmente por S. João Damasceno (+ 750); na Idade Média, embora Santo Tomás de Aquino desconhecesse, S. Boaventura usava a expressão latina “cincumincessio” (do latim circum = em redor, e insidere = estar em cima ou dentro). A tradução desta expressão em português é “recíproca efusão” de amor entre os três eternos Amantes, o “co-envolvimento”, a interpenetração de uma na vida da outra, de modo a produzir o efeito da in-habitação de uma na outra, que traduz bem as expressões de Jesus: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30), e “o Pai está em mim e eu no Pai” (Jo 10,38). Embora sendo distintos e individuais, Eles não são separáveis: onde está um estão os Outros. O que se diz de um se refere necessariamente a todos. Um dá vida ao outro e recebe a vida do outro. Há uma radical paridade entre Eles. Jesus disse: “É por isso que o Pai me ama: porque dou a minha vida. E assim, eu a recebo de novo” – Jo 10,17. Assim há riqueza na unidade e não mera uniformidade.

A Trindade é modelo de toda e qualquer comunidade; respeitando cada individualidade surge, pela comunhão e pela mútua entrega, a Comunidade. Melhor que qualquer teólogo, os cristãos bem entenderam o modelo comunitário da Trindade e souberam expressar com grande acerto o que hoje podemos afirmar: a Santíssima Trindade é a melhor Comunidade! Em linguagem litúrgica, a Igreja nos ensinou desde cedo a glorificar a Trindade. Com ela, dizemos: – Glória ao Pai! Ao Pai que amou tanto o mundo que entregou o seu próprio Filho – Jo 3,16. – Glória ao Filho! Que se sente amado pelo Pai, faz sua vontade, conhece o Pai e O revela aos seus discípulos, e quer que eles cheguem ao conhecimento do Pai: esta é a vida eterna – cf. Jo 17,3. Jesus chegou a dizer aos discípulos: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9)! – Glória ao Espírito Santo! Enviado aos discípulos pelo Filho para que os conduza à plena Verdade – cf. Jo 16,13. Como “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5) em nosso batismo, aproveitemos para fazer uma comparação entre nossa pessoa e cada uma das pessoas da Trindade, entre nossas atitudes de comunhão e as dElas, entre nossa Comunidade e a Comunidade Trinitária.

Como temos vivido a Comunhão entre nós e a Trindade? Entre nós mesmos em nossa Comunidade? Quais os atentados, os isolamentos, as negligências, as ausências, as omissões, as dificuldades produzidas por mim para que o milagre da comunhão aconteça em minha comunidade? Como tenho vivido: como artífice de comunhão ou sou do tipo que não se empenha nisso em minha comunidade religiosa? Em relação às pessoas que moram comigo ou comigo trabalham, em casa ou na Paróquia, na escola ou no hospital, no escritório ou na comunidade pastoral, quais tem sido minhas atitudes mais freqüentes: de abertura, de dar e receber, de “pericórese”, ou de rabugice, de isolamento, de dureza, negação, interesse egoísta? Jesus nos disse que se permanecêssemos nEle e suas palavras permanecessem em nós, poderíamos pedir o que quiséssemos e o obteríamos… (cf. Jo 15,7), então peçamos a ajuda do Espírito Santo para fazer esta auto-análise, pois “o Espírito socorre a nossa fraqueza” (cf. Rm 8,26) e “Deus coopera em tudo para o bem daqueles que O amam” (Rm 8,28).  A todos, frutuosa meditação! Amém.

5 Comentários Quero comentar

  • Excelente artigo.Falar da Trindade é falar do amor.Não é muito fácil entender três pessoas e só só Deus.E Santo agostinho foi mestre neste assunto.

    Comentário por sonia maria de sousa — 2 de junho de 2013 @ 19:26

  • Obrigada Padre Aldo, por tanta beleza…” a pessoa é então um nó de relações”… vou imprimir e estudar mas desde já preciso deixar registrado a comoção que senti e as respostas que procuro sempre. Parabéns!Pertenço à sua Paróquia e quero registrar também que suas Homilias falam direto ao meu coração. Obrigada!

    Comentário por Tânia Maria Furtado Nobre — 14 de setembro de 2013 @ 13:07

  • Esse artigo é muito bom, explica bem o que é a Trindade Santa. Que é simplesmente fazer os outros felizes. Amar o próximo. Como o senhor mesmo disse ” cada um é vivo na medida em que dá a vida as outros e recebe a vida das outras”. Achei maravilhoso, uma frase que deve ser utilizada todos os dias e não deve sequer se esquecida. Uma frase pequena mas com uma profundidade incrível.
    “A vida assim constitui a essência de Deus. E a vida é comunhão dada e recebida. E a comunhão é a Trindade!” E a Trindade é o AMOR PELOS IRMÃOS.
    Cada artigo é mais elucidativo. É uma aula diária. Poderia ser promovida palestras sobre esses assuntos, mas de preferência na Paróquia São Paulo Apóstolo, onde sou paroquiana.
    Parabenizo também a esse site, parabéns a essa equipe pois todos os dias nos proporciona leituras benignas que nos facilitam ao caminho da salvação. É disso que precisamos.

    Comentário por Regina Marchese — 19 de setembro de 2013 @ 21:09

  • ótima explicacao do pe aldo fernandes sobre a santíssima trindade e sobre a tese dos teologos ortodoxos

    Comentário por francisco anderson — 9 de janeiro de 2014 @ 2:39

  • ótima explicação do Pe Aldo Fernandes sobre a santíssima trindade e sobre a tese dos teólogos ortodoxos e também sobre uma das tese do bispo Evódio

    Comentário por francisco anderson — 9 de janeiro de 2014 @ 2:43

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